DESLOCAMENTOS: VIAGENS E DESCOBERTAS NA CULTURA BRASILEIRA CONSTRUÇÃO-DRAMATIZAÇÃO DE MARCAS IDENTITÁRIAS
Uma revista que falasse a partir das margens, que procedesse, então, a um deslocamento em relação aos centros hegemônicos. Esta é a proposta de criação de Margens / Márgenes, revista cujo projeto partiu da idéia do escritor Ricardo Piglia, por ocasião de um encontro com as professoras Monica Bueno (Universidad de Mar del Plata) e Maria Antonieta Pereira (Universidade Federal de Minas Gerais), que traçaram as linhas gerais e assumiram a direção do periódico. A esta proposta foi incorporado o nome de Silviano Santiago que forma a Comissão Editorial, junto àquele escritor e mais Eneida Maria de Souza, Wander de Melo Miranda, Florencia Garamuño e Noé Jitrik. A revista que pretende, em primeira instância, ser viabilizada a partir de pesquisas desenvolvidas principalmente fora das grandes metrópoles da Argentina e do Brasil, propõe-se a formalizar o intercâmbio entre esses dois países, com o propósito de “discutir as perspectivas transnacionais contemporâneas relativas a literatura, cultura, artes e política, a partir das margens e do local, organizando um espaço de escrita e reflexão que fosse, na sua excentricidade histórica e geográfica, metonímia da condição sócio-cultural periférica no atual processo de mundialização da economia”.
Acompanhando a proposta, havia um ensaio de Ricardo Piglia, cuja idéia central que motivara o projeto, girava em torno do que ele chamou de distância, deslocamento, mudança de lugar, o que significa “sair do centro, deixar a linguagem falar também das bordas, no que se ouve, no que chega de outro”. Por um jogo de imaginação, essa proposta viria completar, de um ponto de vista da margem, as que Italo Calvino propusera nas suas Seis propostas para o próximo milênio, exatamente a sexta que o escritor italiano não tivera tempo de escrever. Então, entre os valores ou as qualidades que a literatura deveria conservar ou que deveriam persistir no futuro – a leveza, a rapidez, a exatidão, a visibilidade, a multiplicidade – o escritor argentino propõe-se a escrever a sexta, não a “consistência”, cogitada mas não escrita por Calvino, mas o deslocamento. Formula Piglia: “Qual proposta seria essa escrita a partir de Buenos Aires, escrita a partir do subúrbio do mundo? Como veríamos o futuro da literatura ou a literatura do futuro e sua função? Não como o vê alguém em um país central com uma grande tradição cultural. Examinemos então esse problema a partir da margem, das bordas das tradições centrais, olhando enviesado, o que nos daria uma percepção talvez diferente, específica”. Procura ele ver as vantagens que não estar no centro às vezes proporciona. Em seu exercício de ficção especulativa, busca imaginar esse valor suplementar (as vantagens de estar na margem) que poderia persistir na literatura do futuro, de uma literatura potencial, o que implicaria inferir a realidade que essa literatura postula. Para imaginar esse mundo alternativo, evoca a noção de começo, de algo que abre caminho, numa perspectiva que se ancora em outro lugar (a margem). A pergunta, por conseguinte, sobre a literatura do futuro, é também uma pergunta sobre o limite. Continua ele: “Talvez o fato de escrever da Argentina nos confronta com os limites da literatura e nos permite refletir sobre os limites”, ou seja, os limites que a linguagem impõe, quando se fala de algo que está além da linguagem (como o horror, a violência), que aquele que fala não consegue fazer significar. Há, assim, uma estratégia de “deslocamento”: atribuir a outro uma “cena que condensa e cristaliza uma rede múltipla de sentido” , indo além da mera informação, uma vez que é um movimento interno ao relato, que desloca para o outro a verdade da história, verdade que tem a estrutura de uma ficção onde outro fala, isto é, propõe-se construir na linguagem um lugar para que o outro possa falar. “A literatura seria o lugar no qual sempre é o outro que vem a dizer. Je suis un autre, como dizia Rimbaud” – completa o Piglia.
A proposta do autor de Respiração artificial, que a revista Margem / Márgines elege como princípio de sua fundamentação estética e ideológica, funciona também como estratégia através da qual se percebem continuidades e mudanças nos contatos entre matrizes locais que ressaltam a margem e “abalam”, em graus diversos, as matrizes dadas como universais pelo projeto expansionista do Ocidente. As excentricidades históricas e geográficas, de que fala Piglia, são, pois, deslocamentos estratégicos, distâncias, que permitem um olhar enviesado, possível de medir diferentes direções e velocidades: o espaço e o tempo numa concepção que não ignora o que foi transmitido, ou imposto, pelos colonizadores, mas possibilita gerar descontinuidades, cortes, desvios, para além de uma relação causalista e linear dada como hegemônica, que marcaria a marcha inexorável da história ocidental que o dito “processo civilizatório” impôs.
O deslocamento enquanto idéia regeneradora da margem, que Piglia já figurava em Respiração artificial, pode, assim, ser privilegiado como estratégia operacional fecunda para os estudos comparatistas, se se quer ir além do jogo de fontes e influência. Este tipo de abordagem quase sempre se pauta por uma categoria de valor estético gerado nos centros que, atado àquele processo civilizatório, racionalista, se torna uma maneira de hierarquizar e julgar. Tal estratégia que a cultura da margem lança mão para resistir à sua conformação passiva ao modelo, à imposição da cópia, da semelhança (o fazer igual), possibilita a assunção de produtos culturais periféricos que, em diálogo e em tensão permanente (interna e externamente), podem fecundar a produção artística dos centros hegemônicos. A excentricidade histórica e a geográfica não podem, entretanto, estar dissociadas dos deslocamentos discursivos, atrelando-se, por outro lado, a marcas identitárias que a periferia constrói para si num processo permanente, transformando uma provável identidade estável e seu caráter essencialista numa identidade em processo. Esta torna-se uma urgência em tempos de mundialização econômica e homogeneização cultural, “de intensificação da interdependência transnacional e das interações globais que faz com que as relações sociais pareçam cada vez mais desterritorializadas, ultrapassando as fronteiras até há pouco policiadas pelos costumes, o nacionalismo, a língua”, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, se dá “o desabrochar de identidades regionais e locais, alicerçadas numa revalorização do direito às raízes” (SANTOS, B. de S., 1996 e CUNHA, 1997-1998) e das identidades pontuais, o que leva a reivindicar uma espécie de reterritorialização (na narrativa brasileira contemporânea, seria exemplo desse processo o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins).
O olhar de viés a partir da margem, portanto, permite abrir espaço ao outro e, ao ultrapassar os limites estabelecidos pelo centro, abre possibilidades de reafirmar a diferença da alteridade reprimida, diferença cujos traços borram as fronteiras fixas, tornado-as porosas, ou seja, tornando o espaço delimitado num espaço intersticial, numa encruzilhada concebida como locus de transgressões possíveis (WALTER, 1999: 418).
Deste modo, parece que esta proposta de Piglia, farol para a da revista Margens / Márgenes, é pertinente para um tempo em que a assunção das diferenças (não somente das diversidades) e suas reivindicações e a desterritorialização, ao lado de deslocamentos cada vez mais intensos, por razões diversas (das migrações ao turismo, passando pelos êxodos, pelas diásporas), abalam a conjuntura específica de identidade, locação e locução da cultura, que tem por base uma determinação estável e apresentável de uma localidade, de um “lugar”, na acepção que Marc Augé dá a esse termo, isto é, o que traz as marcas identitárias fornecidas pela permanência, pela continuidade, pela tradição, portanto. Essa realidade pós-moderna do desenraizamento das formas espaciais e temporais e dos homens cria espaços com “limites indeterminados e irregulares” entre e dentro de culturas (Clifford Geertz, apud WALTER, 1999: 417). Completa Roland Walter (da UFPE): “Em outras palavras, dos múltiplos encontros com a alteridade resulta a porosidade das nossas fronteiras: um contínuo processo de transculturação que abre ‘o ser em sua essência’ para ‘o ser-no-outro’”. Assim, o deslocamento atrelado à diferença borra a identidade estável e homogênea, que passa a ser vista como uma produção sempre em processo e sempre constituída dentro e não fora das representações, como requer Stuart Hall (1990,107).
O deslocamento, que pode ser entendido como espacial-geográfico, ou temporal, ou discursivo, associa-se à noção de limite de que fala Piglia, passível de ser conjugada à problemática da fronteira, que por sua vez implica a noção de transgressão (e vice-versa). Por essa ótica, como postula Hommi Bhabha, as narrativas legitimadoras da dominação cultural ainda estruturadas numa lógica binária de centro e periferia, hierquizadora e eurocêntrica, pode ser deslocada para revelar o que ele chama de terceiro espaço, em que convivem momentos diferentes do tempo histórico. Ou dito com outras palavras, “a temporalidade não-sincrônica das culturas nacional e global abre um espaço cultural – um terceiro espaço – onde a negociação das diferenças incomensuráveis cria uma tensão peculiar às existências fronteiriças” (BHABHA, 1998: 300). Esta concepção está bem próxima do conceito de entre-lugar formulado por Silviano Santiago, no ensaio de 1971 “O entre-lugar do discurso latino-americano” (1978), quando, motivado pelas teorias da dependência, procura uma metodologia de leitura para ler o lugar de transgressão das literatura produzidas nos trópicos. A astúcia do olhar periférico, olhar enviesado, que avalia a dependência cultural, para além do econômico, não para negá-la, mas como atitude afirmativa capaz de auto-conhecer-se como valor diferencial. Um pé lá, outro cá, num entre-lugar, lugar diferido, pensa-se uma cultura e uma literatura do ponto de vista de uma província ultramarina ou dos subúrbios da periferia (para usar a imagem de Piglia), repensando conceitos etnocêntricos, debilitando esquemas cristalizados de unidade, pureza e autenticidade. Esse deslocamento, esse descentramento, desloca a cultura européia de seu lugar privilegiado de cultura de referência – postura inspirada em Derrida – pondo em causa a descolonização do pensamento brasileiro e latino-americano. Transmutação dos valores, que o contato entre culturas diferentes provoca. Entre assimilação e agressividade, aprendizagem e reação, obediência e rebelião, realiza-se “o ritual antropofágico da cultura latino-americana”, aquele que se faz de temporalidades disjuntivas, múltiplas e tensas, temporalidade de entre-lugar, que desestabiliza o significado da cultura nacional como homogênea, pois é uma cultura dividida no interior dela própria, articulando sua heterogeneidade e seu hibridismo (BHABHA, 1998: 209).
Neste terceiro espaço, neste entre-lugar, espaço liminar de significação, marcado por tensões de diferenças culturais, as mais criativas formas de identidade cultural, para além das noções de pureza e de originalidade, são produzidas nas “margens entre” (in-between) formas de diferença, nas interseções e transposições através das esferas de classe, gênero, raça, nação, geração, localização. Tanto Bhabha quanto Silviano sublinham o processo ambivalente de cisão e hibridização que, sendo diferente da assimilação, marca a identificação com a diferença da cultura, que pressupõe o ultrapassamento do local como forma pura, limitado por fronteiras, ultrapassamento que se projeta em negociações fronteiriças (BHABHA, 1998: 306). Neste sentido, a ansiedade irresolvível da cultural, porque fronteiriça, articula seus problemas de identificação e sua estética diaspórica em uma temporalidade estranha, disjuntiva, que é, igualmente, tempo do deslocamento cultural e o espaço do intraduzível. Tal processo faz gerar uma poética do reposicionamento e reinscrição que permite olhar as coisas a partir da margem que, como não tem a longa tradição cultural dos centros hegemônicos, pode trabalhar com a noção de anacronismo, em que a defasagem temporal se torna uma vantagem (FIGUEIREDO, 1994), porque pode embaralhar, ou transgredir, aquela tradição que não lhe é própria, ou que passa a sê-lo à medida que é realocada, antropofagizada, ressemantizando-a com dose de suplementaridade (“os suplementos são sinais de adição que compensam um sinal de subtração na origem” – ressalta Gasché, citado por Bhabha [1998: 219]).
Talvez fosse rentável traçar, mesmo que em largas pinceladas, como esse processo já vem historicamente se constituindo, se insinuando, com os relatos de viagem que do século XVI às narrativas do final do século XX tornam o tema da viagem um motivo recorrente, reeditado nos mais diversos discursos da Cultura Brasileira, da literatura aos veiculados pelas mídias e pela Internet. Restrinjo-me, nos limites deste trabalho, ao caso do Brasil na cultura do século XX. Encara-se, aqui, a viagem como um deslocamento espacial privilegiado enquanto elemento de tensão/ dramatização de marcas identitárias, que se agudiza em tempos de ultrapassamento de fronteiras, de globalização econômica e cultural; em tempos em que acultura se configura como processo de montagem multicultural, como atividade gestada em diversos centros; em tempos de tensões entre o global e o local, que não desaparecem frente ao caráter transnacional das tecnologias e do consumo; em tempos em que se questiona novamente a problemática da nação, pondo em xeque o lugar de origem como traço identitário dos produtos simbólicos. Esses relatos de viagem são, muitas vezes, semantizados como descobertas do Brasil. Como procedimento de leitura, toma-se aqui a viagem enquanto fator de transformação no campo cultural, o que se faz pela disseminação das idéias em conseqüência das migrações dos intelectuais e artistas. A par dos trajetos internacionais, vale destacar as rotas empreendidas pelos modernistas brasileiros em busca da descoberta do Brasil com suas tradições regionais, locais, que serão redimensionadas pela ótica das vanguardas. É especialmente para essas viagens internas de descobertas que se dirige, aqui, o foco de atenção, ou seja, interessa mais de perto o deslocamento para dentro do país, muitas vezes a margem da margem.
Para que, em consonância com as propostas de Silviano Santiago e Ricardo Piglia, se detecte a margem de diferença característica de nossos produtos literários, é necessário enfocar os deslocamentos e medir-lhes as conseqüências estético-culturais, em vez de prender-se às conjunturas da estabilidade. São os deslocamentos – no espaço geográfico ou virtual – os responsáveis pelo confronto entre parcelas de diferentes linhagens culturais. Assim, pode-se verificar o impacto da viagem (em suas diferentes formas: migração, exílio, diáspora, conquista, turismo, pesquisa) sobre os componentes do texto literário ou não – temas, procedimentos estilísticos e critérios estético-filosóficos.
A demanda de uma identidade cultural brasileira, diante dos padrões universais, remonta a uma tradição de narrativas de viagem, iniciada no século XVI, quando uma enorme gama de práticas enunciativas produzia uma representação do mundo não-europeu para os europeus. Nos textos escritos por vários viajantes até o século XIX revela-se a recorrência de estratégias e tropos do discurso colonial e pressupõe-se a formulação de questões a partir de premissas que buscam legitimar a construção de uma identidade não-européia a partir da visão eurocêntrica. Os princípios da semelhança, da analogia e da auto-referência criam as condições de possibilidade para a representação do outro, e os modos conceituais estabelecidos pela tradição do pensamento europeu determinam não só o que se considera ser a realidade objetiva como o que se seleciona para descrição. Tais modos determinam, portanto, os temas e motivos que circulam nos textos, sua própria estruturação, e a posição estratégica dos autores com relação ao objeto. Os relatos de viagem manifestam uma forma de apreensão que responde a uma visão totalizadora e a uma perspectiva confirmatória, projetando um modelo de representação da alteridade com implicações epistemológicas e políticas que ainda repercutem em textos do século XX. Estes, porém, respondem, de maneira sintomática, a representações que se expressavam, até então em processos de essencialização que projetam a identidade cultural brasileira de maneira estereotipada, homogênea e inferior, que pressupunham um ideal de progresso europeu e, posteriormente, norte-americano, em direção ao qual o país estaria se movendo, atrelado que estava ao chamado processo civilizatório de nítida marca etnocêntrica.
O século XIX correspondeu ao duplo esforço de construção de uma consciência da nacionalidade e de uma literatura com traços peculiares, esforço através do qual escritores e publicistas buscaram afirmar sua própria identidade. Essas tarefas interdependentes fundamentaram-se, em larga medida, nas experiências de viagem – entendida esta como deslocamento individual de representantes da elite intelectual-econômica. Assim é que a visita à Europa tornou-se etapa decisiva na educação dos líderes de nossa sociedade e que os relatos de viajantes estrangeiros forneceram o espelho para que se traçasse (por cópia, desdobramento, correlação ou confronto) um auto-retrato da cultura brasileira.
No início do século XX, em plena afirmação das vanguardas modernistas, cujas relações com o neocolonialismo foram contraditórias, operou-se um questionamento da definição liberal-romântica da identidade nacional. Através da releitura paródica dos textos de viajantes estrangeiros, tanto quanto através das viagens de escritores e artistas brasileiros ao exterior e ao interior da América Latina, abalou-se o conceito de nação hegemônica e legitimou-se um padrão de cultura miscigenada. É importante ressaltar que, embora protagonizando o tipo individual-elitista de viagem, os modernistas foram críticos rigorosos dos grandes movimentos migratórios – de conquista e colonização, de importação de africanos para o trabalho escravo, de recepção de europeus e asiáticos para o trabalho livre – que constituíram, ao longo dos séculos, a sociedade brasileira.
Atentos ao potencial reflexivo-crítico das viagens, os líderes da revolução modernista praticaram, em sua carreira literária, um gênero misto de ficção, autobiografia e diário de viagem, onde experimentaram um discurso questionador-redefinidor da identidade nacional e individual. Apoiados nas macro-narrativas da modernidade, enquanto leitores da psicanálise freudiana e das tentativas autocríticas da antropologia, de um lado, e simpatizantes ou militantes das esquerdas (anarquista, socialista, comunista), de outro lado, esses intelectuais de vanguarda formaram, nos anos vinte e trinta, um grupo de desconstrutores do eurocentrismo de seus antecedentes. Realizaram essa tarefa tanto pela deformação caricatural do viajante deslumbrado com a Europa, quanto através do aproveitamento estético de percursos de turismo-pesquisa pelo território brasileiro. Produziram, assim, uma arte da diferença.
Já os representantes da segunda geração modernista deixaram, como resultado mais importante de seu exercício literário, a tematização das migrações internas ocasionadas pela seca do nordeste. Nas décadas de trinta e quarenta, em narrativas ficcionais, ora críticas, ora mitificadoras, mostraram a versão regional do colonialismo, que inviabiliza a sobrevivência de pequenos proprietários e trabalhadores agrícolas.
Nos meados do século, com a gradativa desqualificação das macro-narrativas, o elo entre literatura e nacionalidade vai-se tornando tênue. A nação, como referência identificadora, cede lugar a práticas regionais, multiplicidade, diferença, fragmentação do espaço cultural. A obra de Guimarães Rosa, publicada nos anos cinqüenta e sessenta, é o melhor exemplo brasileiro dessas mudanças, pois desenvolve uma complexa técnica escritural auto-reflexiva combinando alta teoria ocidental com anti-teoria não-ocidental. Nas décadas mais recentes, diante de novas circunstâncias político-históricas – a comunicação de massa propiciada por tecnologia que elimina fronteiras e distâncias, a transformação do colonialismo em movimento globalizador das atividades econômica e cultural –, a produção literária brasileira minimiza o significado da viagem e passa a explorar, como técnica e temática, os percursos virtuais. Essa troca de valores corresponde a uma operação desconstrutora não só do etnocentrismo como dos padrões estéticos centrados na unicidade do sujeito racional.
Ao longo do século XIX, a viagem à Europa incluiu-se quase obrigatoriamente como rito iniciático, na trajetória dos escritores brasileiros. Os candidatos à carreira intelectual e política educavam-se ou complementavam seus estudos na França, na Inglaterra ou em Portugal. Lá estreitavam seu contato com a literatura – os padrões canônicos e os movimentos renovadores. De posse dessa bagagem, sentiam-se estimulados a refletir sobre as diferenças entre o modelo da civilização ocidental e as práticas transculturadas da vida nos trópicos. Iam construindo, assim, sua consciência de brasileiros, que formulavam ora como projeto progressista para as letras nacionais, ora como representação lírica de sua experiência cultural de deslocamento.
O saldo de aquisições, dúvidas e problemas, contido em nossa produção romântico-realista-parnasiana que relatam o contato com a cultura européia através das viagens, pode ser apreciado através da leitura de Minha formação de Joaquim Nabuco publicada em 1900. Aí, o escritor maduro reflete sobre cada etapa de sua formação político-ideológica e literária, dando especial destaque a sua “primeira viagem à Europa” (NABUCO, 1963: 43) entre agosto de 1873 e setembro de 1874.
Na abertura de Um estadista do império, estudo histórico-biográfico escrito na mesma época, Nabuco observa que “nada opera a dilatação rápida do espírito tanto como as viagens, as mudanças de costumes, de sociedade, de país”. Em retrospecto, reflete que, então, contemplando paisagens e obras de arte célebres e conhecendo personalidades políticas e literárias, pôde avaliar o peso decisivo da herança européia em sua formação intelectual de sul-americano.
A viagem de 1873 fez Nabuco descobrir em si a predominância do interesse cosmopolita. Na autobiografia, descreve-se menos como um participante da política local do que como um “espectador” para quem “a peça é (...) a civilização e se está representando em todos os teatros da humanidade” (1963: 33). Note-se que, de sua perspectiva, o humano equivale ao europeu, pois, segundo afirma, “o Novo Mundo para tudo que é imaginação estética ou histórica é uma verdadeira solidão” (1963: 41).
Retomando, reflexivamente, suas lembranças mais significativas (a Assembléia Nacional francesa, as paisagens suíças, a arte do Renascimento na Itália, o Parlamento inglês), Joaquim Nabuco destaca sua sensação de irremediável despaisamento. Com esse registro, deixava formulado, com clareza, o dilema que perturba a carreira dos intelectuais brasileiros, dos tempos coloniais ao limiar do século XX: “de um lado do mar, sente-se a ausência do mundo; do outro, a ausência do país” (1963: 40).
Se a maioria dos contemporâneos de Nabuco produziu sua obra conformada com o duplo exílio, a geração seguinte, participando do programa de renovação modernista, procurou resolver o dilema. Enquanto Oswald de Andrade representava parodisticamente a educação européia de João Miramar, Mário de Andrade, muito mais radical, desmoralizava o que chamou “a tragédia de Nabuco” e compunha Macunaíma como o viajante fantástico da América do Sul.
Com sua perspicácia crítica, Silviano Santiago contrapõe, em artigo “Atração do mundo”, publicado no caderno Idéias, do Jornal do Brasil, de 02/12/1995, as posições de Nabuco e Mário de Andrade. Não o faz, no entanto, com a distância do comentarista de nossa história literária, mas com o rigor do crítico contemporâneo que percebe, no fascínio atual pela globalização, a persistência insidiosa da “moléstia de Nabuco”. Contra as seqüelas desse mal, receita a adoção urgente do programa marioandradino de conquista sistemática da brasilidade, apoiada na certeza de que “não há Civilização. Há civilizações”, como declarou Mário de Andrade em carta de 1925 ao poeta Carlos Drummond de Andrade.
Se, a partir da década de vinte, o comportamento dos modernistas enquanto viajantes e narradores de viagem, marca uma mudança do conceito de “formação” do escritor no século XX, sua tarefa foi em parte antecipada pela experiência biográfico-estética de um contemporâneo de Nabuco – Euclides da Cunha. Dois anos depois de publicadas as memórias do primeiro, o segundo abalou o cenário europeizado da virada do século, editando Os sertões (1902).
Enquanto Nabuco percorre a Europa, saudoso da pátria mas sentindo-se reintegrado à cultura civilizada, Euclides descobre no sertão o “reino” a que deve servir com sua escrita. São caminhos opostos mas não excludentes. Constituem as duas matrizes básicas de viagens que contribuíram para a formação dos escritores brasileiros, divididos entre os cânones universais e a diversidade mesclada e desnorteante das margens. Correspondem, também, a motivos freqüentes em nossa produção literária – a aventura heróica, a atividade intelectual posta romanticamente a serviço de uma causa, a descoberta de uma origem ou destino para o país.
Se a primeira matriz é fecunda e nela se inscrevem as viagens de nossos escritores das primeiras décadas do século XX, bem como as viagens de Oswald de Andrade à Europa, de onde, do alto de seu atelier na Place de Clichy, descobre, deslumbrado, que o Brasil existe, a segunda matriz é também fecunda, a exemplo da viagem, que em 1924 a caravana dos modernistas paulistas faz às cidades históricas de Minas Gerais e a Belo Horizonte, para “descobrir o Brasil”.Tencionavam os moços de São Paulo proporcionar ao confrade franco-suíço Blaise Cendrars uma experiência significativa com a cultura brasileira. Dando-se conta, sem dúvida, da contradição que enfrentavam, os modernistas andaram “em busca da arte e do passado”, segundo definiu Mário na oitava de suas “Crônicas de Malazarte”. Graças à ruptura com os padrões estéticos convencionais, os iconoclastas de 1922 tornaram-se capazes de “ver com olhos livres” para apreciar a mescla de traços primitivos e eruditos característica da arquitetura e estatuária barrocas. Essa experiência descondicionadora e enriquecedora já se havia iniciado, meses antes, com a participação dos jovens intelectuais paulistas no carnaval carioca. O percurso, que eles fizeram pelas mascaradas, desfilando em ritmo afro-brasileiro, e pelas velhas trilhas, revelando ruínas do tempo colonial-escravocrata, produziu uma série de esboços de poesia, desenho e reflexão estética, que não mudou apenas o rumo de suas obras; transformou, desde então, o conceito de arte no Brasil. A viagem de descoberta do país incorporado a um jogo ficcional constitui o motivo central do livro de poemas Pau-brasil (1925), de Oswald de Andrade, que procede a uma viagem pela história do Brasil, a começar pela carta de Caminha.
Nessa segunda matriz, podem ser citadas ainda as viagens etnográficas de Mário de Andrade, feitas ao nordeste e norte do Brasil, em 1927. Tendo-se preparado para tal aventura, Mário redigiu, durante o percurso, um diário ficcional-reflexivo-documental, de onde selecionou algumas entradas para transformar em crônicas jornalísticas. Já em 1943, preparou artigos e anotações para serem publicados sob o título de O turista aprendiz, cuja primeira parte devia apresentar-se como: “Viagem pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia e por Marajó até dizer chega”.
Mas, para avaliar com maior precisão esse dois tipos de deslocamento, é necessário confrontá-los com uma terceira matriz, a do deslocamento mínimo ou da imobilidade. Trata-se do caso em que a viagem só é empreendida através da leitura. Em lugar de servir de motivo ou referência para os percursos geográficos, o saber inscrito nos livros torna-se o substituto pleno do deslocamento.
Na história da literatura e da vida cultural no Brasil, o contraponto entre as três viagens-matriz ganha importância estratégica, quando se considera que o representante da formação exclusivamente sedentária é Machado de Assis. À medida que, hoje, se reconhece, na experiência ficcional machadiana, uma contribuição singular e significativa ao gênero do romance, deve-se interpretar a negação (literal e simbólica) das viagens como índice de uma tomada consciente de distância crítica em relação ao país e ao mundo. Procede, então, a um outro tipo de deslocamento que permite olhar o mundo, o Brasil e o homem com aquele olhar enviesado de que fala Ricardo Piglia. Mesmo que esse olhar seja cético e melancólico, ou por isso mesmo, é com a pena da galhofa que Machado tira vantagens de não estar no centro; olha das margens, do Rio de Janeiro, do subúrbio do mundo, mas mostrava-se perfeitamente à vontade com a arte e o pensamento das metrópoles, graças a sua longa experiência de leitura. Em diferentes oportunidades, deixa clara sua posição estético-política de escritor latino-americano. Não desconhece nem minimiza as produções clássica e moderna da Europa, mas considera-se livre para reinventá-las pelos procedimentos discursivos viés do humor paródico, que lhe permite adotar estrategicamente o olhar enviesado a partir da margem. Também não rejeita as tradições selvagens de seu povo, mas não precisa supervalorizá-las para formar sua identidade literária, ou revelar “o instinto de nacionalidade” presente em nossas produções simbólicas.
Com um perfil que subverte os padrões do cronista de costumes e do paisagista, o narrador machadiano constrói-se pelo deslocamento só “ao redor de si mesmo” (SÚSSEKIND, 1990). Esse expediente, praticado em textos como Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891), reduz o tempo-espaço da viagem a fantasia anacrônica ou a delírio vertiginoso. Noutros termos: desmancha a ilusão realista para fazer narrador e personagem deslocarem-se no plano virtual da linguagem. Como conseqüência, a matriz machadiana, contraposta às duas outras matrizes literárias, corresponde ao ponto de maior radicalidade da estética moderna desconstrutora e tem sido objeto de resgate através da citação e do pastiche pós-modernos.
Procedendo de tal maneira, nossos modernistas, os intelectuais e os artistas, e muitos que vieram depois, ensaiaram tentativas de sair do centro, mas sem ignorar as contribuições da produção desses centros, com todas as contradições que essa estratégia comporta. Estavam certamente conscientes da ambivalência que o ideário da modernidade e suas derivas pós-modernas adaptados aos trópicos gerariam. Com um pé lá, outro cá, escolheram estrategicamente o deslocamento que descentra, situando-se num entre-lugar discursivo, um terceiro espaço, para poder falar do ponto de vista da margem, ainda fecundo nestes tempos que testemunham a não-homogeneidade das culturas nacionais e em que se torna mais do que nunca urgente se perguntar o que é produzir cultura numa província ultramarina, num tempo de fronteiras cada vez mais porosas de valores desestabilizados.
Gostaria de terminar, citando mais uma vez Ricardo Piglia, com as palavras com que ele fecha o seu texto:
No ano de 2100, quando o nome de todos os autores se haja perdido e a literatura seja intemporal e anônima, esta pequena proposta sobre o deslocamento e a distância, será, talvez, um apêndice ou uma intercalação apócrifa em um web.site chamado “As seis propostas”, que para esse momento serão lidas como se fossem registros num antigo manual de estratégia usado para sobreviver em tempos difíceis”.
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WALTER, Roland. “Revisões culturais: entre-lugares, diferenças e identidades-em-processo”. Culturas, contextos e contemporaneidade. Seminário ABRALIC Norte/Nordeste: Anais. Universidade Federal de Alagoas, 29 a 30 nov. 1999. Salvador: ABRALIC, 1999. p.417-422.
* Idéias deste texto foram discutidas com meus alunos do Mestrado e do Doutorado em Literatura Brasileira da PUC-Rio, no primeiro semestre de 2000. Antes disso, porém, a partir do plano que traçamos, Silviano Santiago e eu, para a seção “A cultura literária no século XX” do Projeto “Culturas Literárias Latino-Americanas: Uma História Comparada” (coordenado por Mario Valdés e Djelal Kadir), muitas delas ganharam corpo nos textos que escrevemos, Marília Rothier Cardoso e eu, para essa obra. Ela é, na verdade, co-autora desta comunicação. Dedico este texto a ela e a Silviano Santiago.